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Edvard Munch ~ Clothes On A Line In Åsgårdstrand

 

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publicado às 19:41

Anita no Jardim

por MC, em 24.09.15

O Verão tardio afogueia ainda o pôr-do-sol. O pátio do jardim já se calou de risos e brincadeiras. Os baloiços quedam-se no merecido descanso, prontos para folgar no manso da noite. Lá dentro, as salas e corredores repousam na penumbra, um cheirinho bom a asseio solta-se do chão ainda molhado.

Junto à portaria, duas mãozinhas de dedos gordinhos enrodilham-se na rede, formando pequenas flores assimétricas de minúsculas unhas pintadas de cor-de-rosa. Um vestidito amarelo, estampado com diminutas gaiolas multicores, esvoaça na brisa e exibe, despreocupado, os vincos e máculas de um dia no jardim-de-infância. Na fronte transpirada, misturam-se as farripas húmidas da franja com os sulcos vincados dos arames, no esforço de vislumbrar para além da rede.

“Ó Cilinha, vês alguma coisa, vês?”, pergunta mais uma vez. Que não, responde-lhe a Cila. Que há que ter paciência, torna-lhe, com um sorriso encorajador. “Mas é muito tarde, pois é? Vai ser noite, não vai? E nós vamos ficar aqui as duas sozinhas e eu tenho medo!” As sobrancelhas ralinhas formam um arco de genuína preocupação. “Calma, querida. A mamã já vem. Está quase, quase a chegar.” “Está quase a chegar”, murmura a Cila mais para si própria do que para a petiza, numa tentativa infrutífera de persuasão conjunta.

O sol está prestes a pôr-se no fundo da rua tranquila. Os espaços de estacionamento estão quase todos desocupados. Os passeios vazios ladeiam a rua larga, já preparada para o sossego desabitado da noite. Os olhos da Cila cravam-se na curva ao fundo da estrada, enquanto mentalmente desfia o ror de coisas que ainda tem de fazer, as desoras que são, a sua sina de corrupiar. A menina choraminga. A mulher faz-lhe uma festa no cabelo. “Olha, Ana, vem lá a mamã!”

A Ana enxuga as lágrimas com as costas da mão, limpa de caminho o nariz, saltita para tentar ver. Já o automóvel sobe a rua, garboso e luzidio, e estaciona desafogado na frente do recinto. A mamã da Ana desce do veículo apressada e sorridente. Na atrapalhação da correria, cai-lhe ao chão a sacola, dispara o frasco de protector solar, os óculos de sol aterram –afortunadamente- em cima da toalha de franjinhas, a revista esventra-se no pavimento.

A Ana estanca, fraccionada pela alegria de ver a mãe e a necessidade de apreender o insólito da situação, o semblante fechado da Cilinha. “Desculpe, D. Cila”, diz a mamã, ao mesmo tempo que atabalhoadamente apanha do chão a parafernália, “atrasei-me um bocadinho…” A D. Cila, aperreada pela vontade (não concretizável) de lhe dizer duas ou três coisas, arremessou: “um bocadinho é como quem diz, não é? É que o Jardim já fechou há quase duas horas, sabe? E só cá fiquei eu com a menina!” Ainda adiantou “E já não é a primeira vez que…”, mas a voz morreu-lhe na distracção de observar as revoadinhas de areia a soltarem-se das sacudidelas da toalha.

Resignada, voltou as costas para fechar o portão. Ainda ouviu a vozinha magoada da menina “Ó mamã, foste à praia? E não me levaste?” e sentiu a sua indignação a afundar-se numa vaga imensa de compaixão e tristeza.

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publicado às 14:19

Mi casa es su casa

por MC, em 17.09.15

 

mi casa.png

 

As paredes, revestidas a azulejos de um amarelo desmaiado, estão salpicadas de peças coloridas, manifestações de pequeninas mãos artísticas de muitas gerações precedentes. As mesas, forradas com toalhas de plástico de quadrículas amarelas e brancas, perfilam-se na sala ampla como comboios na estação. Pela primeira vez em muitas semanas, as vozes pequeninas e os risos vibrantes estão de volta ao seu habitat natural.

Os primeiros a chegar ao refeitório são os pequerruchos do primeiro ano, logo seguidos dos do segundo. Hão-de acabar a refeição primeiro que todos os outros, para que possam, nos primeiros passos da grande aventura, almoçar mais resguardados do bulício geral.

A Dona Teresa e a Dona Anabela, fazendo jus ao estatuto privilegiado de dupla certificação de funcionárias zelosas e avós dedicadas, mantêm a ordem e amparam as mãos pequeninas nas rotinas do repasto. A tarefa é, a cada ano que passa, mais hercúlea. Em cerca de seis dezenas de petizes, contam-se pelos dedos de uma mão aqueles que deveras almoçam.

Uma pequenita franzina de fartos caracóis encrespados leva o prato nas mãos, deseja almoçar no parapeito da janela. Que não pode ser, diz-lhe a Dona Teresa. Os meninos comem sentadinhos à mesa, diz-lhe, e quando acabam podem ir brincar. Ela não quer sentar-se à mesa, quer estar à janela. Mas então…, torna a Dona Teresa. Não e não, solta a menina um grito choroso. A mãe em casa deixa. A avó também. Já um pequenito se senta no chão, o prato no amplexo das pernas cruzadas, um carreiro de massinhas e molho denunciam-lhe o rasto. Não se convence do despropósito. Lá na minha casa também faço assim: sento-me no chão da sala a jantar e a ver televisão. Não faz mal nenhum, pois faz?

Na mesa perto da porta, a ramboia alastra. Há pedacinhos de carne e de massa nos copos de água, na toalha e no chão. No pavimento entre as mesas um riacho de água pinga do jarro entornado. A maior parte dos rabiosques pouco sossega nas cadeiras. Há meninos de cócoras, outros ajoelhados no assento e maioritariamente espojados sobre a mesa, há pernocas para trás, pernocas para os lados, equilibrismos e expectáveis quedas.

Muitos dos garfos e colheres jazem imprestáveis ao lado dos pratos. Foram sumariamente substituídos por dedos que mergulham ávidos no prato e pescam as massinhas, levando-as à boca besuntada de molho. Alguns meninos seguram a colher com o punho fechado atravessado no cabo, esbarrando na inglória tarefa de abocanhar de través.

Um refeitório poderia ser, por excelência, um extraordinário observatório de interacções e comportamentos de uma sociedade. Poderia, digo-vos eu, constituir um instrumento de análise sociológica da mais rigorosa qualidade científica, no âmbito das variadas áreas das ciências sociais e humanas.

Todos os investigadores e estudiosos dos fenómenos sociais deviam, pelo menos uma vez no seu percurso académico, visitar um refeitório escolar. Talvez nos ajudassem a compreender em que momento funesto do nosso percurso de cidadania a civilidade dos gestos se tornou inimiga da espontaneidade da infância e que espécie de aziago fenómeno nos levou a considerar a candura das crianças incompatível com o saudável exercício da disciplina e da cortesia do convívio social.

 

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publicado às 17:21

Olive Kitteridge

por MC, em 14.09.15

Acabei de ver o segundo episódio de "Olive Kitteridge" e confirma-se. É soberba. Estou oficial e irremediavelmente arrebatada. A Frances McDormand consegue (mais uma vez) ser sublime e maravilhosa e inovadora(não-confundir-com-surpreendente)mente talentosa. 

 

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publicado às 23:42

Disfunções

por MC, em 10.09.15

Não foi necessário levantar os olhos do relatório que afanosamente tentava terminar, nem mesmo consultar a agenda do dia, para compreender quem seria a primeira visita da manhã. A voz estridente e entaramelada a ecoar no corredor e os ruídos metálicos do andarilho a golpear a tijoleira anunciavam sem qualquer dúvida a chegada do António. A porta aberta de rompante, um “Bom dia! Bom dia! Bom dia!” vigoroso, o António a caminhar, abrupto e desarticulado, a mãe logo atrás, também atabalhoada, à força de querer ajudar, os braços carregados de coisas, num afã de amparar o filho.

Levanto-me para o abraçar, há beijinhos e risos pelo ar, uma labuta para acomodar o moço na cadeira ampla à minha frente, o andarilho despenca, arrasta consigo os haveres da mãe, a mala esparramada no chão, de dentro disparam chaves, moedas, lápis, telemóvel, um par de livros. Um deles, de capa cor-de-rosa com chamativas letras em relevo prateado, intitula-se ‘Quem Acredita sempre Alcança - O Poder da Superação’.

Evito olhá-lo uma segunda vez, engulo a irritação que me provoca, começamos a conversar sobre as férias. O António tenta extravasar o entusiasmo que o tema suscita e quer contar-me todas as coisas boas que lhe aconteceram nas últimas semanas, mas apenas consegue verbalizar curtos segmentos desarticulados e fanhosos, complementados com gestos abruptos, desengonçados, cheios de ímpetos que não consegue controlar. O olhar, errático e desirmanado, fita pontos diferentes na parede.

Com o António correu mal tudo o que havia para correr mal: a genética trouxe-lhe as patologias neurológicas e as malformações físicas, o parto traumático exacerbou-as e empossou-as de poderes intransponíveis, numa congeminação maléfica que o transformou numa marionete desconjuntada, onde as forças do universo despejaram, pérfidas, os seus humores pestilentos. Não contentes com tudo isto, as energias cósmicas deram-lhe ainda uma mãe que acredita com fervor que querer é inevitavelmente poder.

A mãe do António é uma mãe maravilhosa, é preciso que se note. O nome dela é Ana, mas há muitos anos que ela deixou de ser a Ana para ser a mãe do António. E é-o tão integral e plenamente que eu duvido que ainda haja espaço dentro de si para ser outra coisa que não a mãe do António. Todos os seus momentos, de todos os dias, de todos os anos, escorrem em função deste único filho, em quem ela deposita uma fé irracional, simultaneamente sublime e nefasta.

E não há maneira de a convencer que não, nem sempre querer é poder, que nem sempre conseguimos ultrapassar os obstáculos, por muita força de vontade que tenhamos, que não, nem sempre a perseverança resulta em sucesso. Não há conversa que não enverede pelo desenrolar dos planos que giza para o futuro do António, pelo enumerar das coisas fantásticas que ele vai poder concretizar, quando ficar melhorzinho – e ele vai ficar melhorzinho. Se se esforçar mais, se for mais perseverante, se for mais esforçado, menos preguiçoso. E o António a ouvir, embatucado, tristonho, a diminuir, esmagado pela fé inabalável da mãe.

Que não, digo-lhe amiúde, que ele não é preguiçoso, é muito esforçado e trabalhador, todos os técnicos, fisioterapeutas e professores o garantem, que se supera quotidianamente na luta contra as suas limitações, que mais não faz porque não lhe é humanamente possível.

Nada. Banhada pela luz artificial dos evangelhos cor-de-rosa de auto-ajuda e superação, tem sempre à mão um manancial de citações retumbantes com lições de vida. Envolta no néon ofuscante das suas expectativas, alvitra momentos futuros em que o António poderá fazer muito bem tudo o que os outros fazem, se assim o quiser. Aventa exemplos que promissoramente possam ser catalisadores da vontade do António: mostra-lhe cenários auspiciosos ao volante do seu automóvel, com a sua namorada, presenteia-o com sorrisos e abraços incentivadores.

O António, que não consegue enumerar de seguida os dias da semana, não tem coordenação motora para abotoar o casaco e é totalmente dependente de terceiros para a concretização de qualquer necessidade fisiológica, oferece-lhe um sorriso enternecedor e definha na cadeira, avassaladoramente abalroado pelo mistério da fé.


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publicado às 19:54

Cultura(s)

por MC, em 03.09.15

Atravessou a rua e parou no passeio da avenida larga, inundada de sol radioso e castigador. Ao contrário da maioria, não se importava de não estar de férias nesta altura do ano. Lisboa em Agosto transformava-se de cores e ritmos, tornava-se mais fluída, mais livre e mais enigmática, mesmo (e sobretudo) para quem a conhecia de olhos fechados. O calor intenso esmorecia o frescor da camisa branca acabada de vestir. Alisou com as mãos transpiradas a saia azul e recuou alguns passos, até sentir a sombra generosa do jacarandá. Ao longe avistou o autocarro da empresa e, contrariada, voltou a aproximar-se da berma.

«Bom dia, menina», cumprimentou o motorista com um sorriso tranquilo. »Bom dia, Sr. Zé», respondeu com genuíno agrado. Gostava de trabalhar com o Sr. Zé, alentejano de mãos ossudas e marcadas, testemunhas de anos de lavra e plantio, algures numa encarnação anterior à fuga para a cidade grande.

«Então, menina, o que temos hoje?» cantarolou no maravilhoso sotaque da sua terra. «Não sei, Sr. Zé. Sabe como é o Verão, não sabe? Nunca sabemos o que nos espera. Hoje está tanto calor… Gostava que me calhasse um grupinho pacato e simpático. Isso é que era.» O Sr. Zé acenou em concordância e conduziu mansamente na direcção do rio.

Assim que o autocarro se imobilizou junto ao cais, viu várias mulheres de blusa branca e saia azul idênticas às suas, rodeadas de pequenos grupos de pessoas que as escutavam e seguiam como pintainhos curiosos. Reconheceu a voz da supervisora que disparava enérgicos ‘Bons Dias’ em todas as direcções. «Olá, olá», dirigiu-se-lhe com despacho, «aquele é o seu grupo, vêm do cruzeiro dos Estados Unidos, portanto, o seu tour hoje é em Inglês.»

Olhou na direcção indicada pela sua chefe e respirou fundo. À sombra exígua de um toldo, cerca de vinte turistas ruidosos e alegres conversavam animadamente. Os mais velhos, manifestamente incomodados com o calor desmoderado, refrescavam-se com os folhetos turísticos e mapas da cidade, que agitavam na frente dos rostos transpirados. Algumas crianças davam corridinhas nervosas e falavam alto, reclamando a atenção incondicional dos adultos. Todos acolheram com agrado o convite para entrar no autocarro e dar início à visita guiada.

A manhã foi escorrendo como de costume. A voz suave e colocada ia soltando as habituais referências históricas, informações e curiosidades acerca dos locais e monumentos de Lisboa, tornando-se cada vez mais automática e monocórdica, à medida que o descaso da plateia se ia tornando mais evidente. Atrás dela, os turistas cavaqueavam em voz alta, cruzando conversas de um banco para o outro, de trás para a frente, de um lado para o outro, as crianças a fazer valer os seus queixumes à força de gritos.

O seu olhar cruzou com o semblante embaraçado do Sr. Zé. Respondeu com um sorriso agradecido à careta simpática de solidariedade que ele lhe enviou e encolheu os ombros. Atrás de si, uma voz interrompeu-a. Uma das senhoras inquiria acerca da existência de shopping areas em Lisboa e logo aventou a possibilidade de visitar um mall antes de regressar ao navio, no que foi fervorosamente apoiada pelas restantes. Os senhores, demasiado exauridos para verbalizar opinião, soltavam pequenos balidos encalorados e olhavam cobiçosos na direcção das esplanadas do Campo das Cebolas.

Subitamente, desponta o alvoroço. As crianças soltam gritinhos pasmados, dedinhos em riste, frontes coladas ao vidro, as senhoras cochicham perplexas. Uma delas, mais afoita, questiona: ”ó menina, não foram vocês portugueses que descobriram o Brasil?».  A menina trocou uma olhadela aturdida com o Sr. Zé e acenou afirmativamente. A senhora, cada vez mais aguerrida, continuava: «ó menina, não são vocês portugueses que se fartam de se vangloriar de serem grandes marinheiros e terem descoberto o Brasil?», insistia, na sua característica pronúncia nasalada. Cada vez mais intrigada, a menina murmurou um cauteloso e arrastado sim.  «Aha! Grande coisa!» declarou com exaltação, «grande, GRANDE coisa, a sério». E levantou-se, triunfante, apontando lá para fora: «olha a grande dificuldade! É mesmo já ali! Até se vê daqui o Cristo Rei! A sério, a sério, que descoberta tão difícil», escarneceu, coradinha de satisfação.

A menina emudeceu, o raciocínio encalhado. Não sabe precisar quanto tempo passou neste marasmo lerdo e só se lembra de ter despertado da dormência e dar por si a limpar afanosamente o pára-brisas do autocarro, para onde voaram todas as gotas de água que o Sr. Zé cuspiu a alta velocidade, quando inusitadamente se engasgou.

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publicado às 14:44


Este estendal é meramente um exercício de egocentrismo. É a roupa que eu estendo, quando calha.

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